Foi
anunciada hoje a morte do apresentador Gugu Liberato, aos 60 anos, após
sofrer um acidente doméstico na quarta-feira, nos Estados Unidos. De
acordo com nota oficial divulgada por sua assessoria de imprensa, ele
teve uma queda acidental de uma altura de cerca de quatro metros quando
fazia um reparo no ar condicionado instalado no sótão de sua casa, em Orlando.
"Foi
prontamente socorrido pela equipe de resgate e admitido no Orlando
Health Medical Center, onde permaneceu na Unidade de Terapia Intensiva,
acompanhado pela equipe médica local. Na admissão, deu entrada em escala
de Glasgow 3 [usada para medir a consciência e a evolução das lesões
cerebrais], e os exames iniciais constataram sangramento intracraniano.
Em virtude da gravidade neurológica, não foi indicado qualquer
procedimento cirúrgico. Durante o período de observação, foi constatada a
ausência de atividade cerebral."
A nota ainda afirma que a
morte encefálica foi confirmada pelo prof. dr. Guilherme Lepski,
neurocirurgião brasileiro chamado pela família, que, após ver as imagens
dos exames em detalhes, confirmou a irreversibilidade do quadro
clínico. O diagnóstico foi feito diante de sua mãe, Maria do Céu, de 90
anos, dos irmãos Amandio Augusto e Aparecida Liberato, e da mãe de seus
filhos, Rose Miriam Di Matteo.
"Ainda não temos detalhes sobre o
traslado para o Brasil. Informações sobre velório e sepultamento serão
passadas assim que tudo estiver definido." De acordo com a assessoria de
imprensa, a família autorizou a doação de todos os órgãos do apresentador.
"Nosso
Gugu sempre viveu de maneira simples e alegre, cercado por seus
familiares e extremamente dedicado aos filhos. E assim foi até o final
da vida", afirmou a nota. "Gugu sempre refletiu sobre os verdadeiros
valores da vida e o quão frágil ela se revela. Sua partida nos deixa sem
chão, mas reforça nossa certeza de que ele viveu plenamente. Fica a
saudade, ficam as lembranças —que são muitas— e a certeza de que Deus
recebe agora um filho querido, e o céu ganha uma estrela que emana luz e
paz."
A nota é assinada por seus familiares e funcionários.
Desde
quinta-feira, havia boatos a respeito de morte de Gugu. Muitos famosos
chegaram a lamentar publicamente o ocorrido, em suas redes sociais, mas a
assessoria do apresentador divulgou uma nota à noite afirmando que ele
seguia internado na UTI do hospital e que permanecia vivo.
Gugu teve três filhos com a médica Rose Miriam Di Matteo: João Augusto (18 anos) e as gêmeas Marina e Sofia (15 anos).
Gugu com os filhos, João Augusto, Marina e Sofia Liberato
Imagem: Reprodução/ Instagram
Atualmente,
Gugu apresentava na Record, às quartas-feiras, o reality show Canta
Comigo, que terá a sua final no dia 4 de dezembro. O programa já está
inteiramente gravado. Os próximos compromissos do animador na emissora
seriam o especial Família Record e o reality de casais Power Couple.
Após
o anúncio da morte, a emissora também divulgou uma nota. "É com muito
pesar que a Record TV lamenta o falecimento do apresentador Gugu
Liberato nesta sexta, dia 22 de novembro de 2019. A Record TV teve a
honra de contar com o talento de Gugu Liberato na sua programação ao
longo de dez anos. Na tela da emissora, ele levou ao público diversão,
humor, grandes entrevistas e muita emoção. Profissional versátil,
transitou em diversos gêneros com uma desenvoltura ímpar, realmente
única na televisão brasileira."
Cartas para Silvio Santos
Antônio
Augusto de Moraes Liberato nasceu em São Paulo, em 10 de abril de 1959.
Filho dos portugueses Maria do Céu e Augusto Claudino Liberato, Gugu
trabalhou na televisão desde a adolescência e foi apontado como o
sucessor de Silvio Santos.
Com apenas 14 anos, Gugu começou a
carreira enviando cartas para Silvio com sugestões de quadros e
gincanas. Prestes a fazer aniversário, o apresentador o contratou para
trabalhar ao lado dele em seus programas.
"Eu ia fazer 15 anos no
mês em que entrei lá. Fiquei de 1974 a 2009, foram 38 anos. Antes de
trabalhar em frente às câmeras, eu trabalhava com ele no palco, na
produção. Tudo o que sei foi ele que me ensinou", recordou Gugu em
entrevista ao Programa do Porchat, na Record, em 2017.
O
apresentador chegou a cursar odontologia, mas desistiu a pedido de
Silvio, que investiu em seu pupilo a ponto de bancar um curso de
jornalismo para ele na Faculdade Cásper Líbero.
Gugu com Silvio Santos no "Roletrando" em 1988
Imagem: Moacyr dos Santos/SBT Viva a Noite
De
auxiliar de produção, Gugu se tornou apresentador do Sessão Premiada,
em 1981, no SBT. No ano seguinte, estreou seu primeiro programa de
sucesso, Viva a Noite, formato argentino encomendado por Silvio. Durante
dez anos, foi uma das maiores audiências da TV nas noites de sábado.
Na
época, Gugu já era chamado de "novo Silvio Santos", rótulo que ele
rejeitava. "Silvio não é apenas um apresentador. Ele é um gênio, e os
gênios são insubstituíveis", afirmou em entrevista à revista Veja, em
1983.
No Viva a Noite, Gugu fazia gincanas com famosos e promovia
concursos curiosos, como Rambo Brasileiro. Em um dos quadros mais
famosos, Sonho Maluco, Gugu atravessou um túnel de fogo e, mesmo com
trajes adequados, sofreu queimaduras graves no corpo.
A atração
semanal também divulgou à exaustão o conjunto musical Menudo. Inspirado
nos garotos portorriquenhos, Gugu criou a Promoart e lançou grupos como Polegar, Dominó e Banana Split.
Também investiu em sua própria carreira de cantor, com hits como
Docinho, Docinho e Baile dos Passarinhos, que encerrava o Viva a Noite.
A quase ida para a Globo
Em
1987, no auge do Viva a Noite, uma notícia abalou os bastidores da
televisão: a Globo contratou Gugu Liberato. Recuperando-se de uma
cirurgia nas cordas vocais, Silvio Santos conseguiu reverter o acordo
indo pessoalmente à sede da emissora carioca. E trouxe seu pupilo de
volta ao SBT.
"O Boni [vice-diretor de operações da Globo] me
chamou, fizemos um contrato e acabei assinando com a Globo, que me
prometeu um programa aos domingos e vários formatos. Fizeram cenário,
estava tudo pronto para estrear. Silvio me chamou: 'Eu queria que você
não fosse para a Globo, porque estou com um problema de garganta e
talvez eu não possa fazer o meu programa. Eu quero que você fique e
divida o domingo comigo", relembrou Gugu a Porchat.
Promovido aos
domingos, Gugu apresentou uma série de game shows, como Passa ou
Repassa, Cidade Contra Cidade, TV Animal, Nações Unidas, Corrida Maluca e
Roletrando. Aos sábados, o Viva a Noite foi substituído pelo Sabadão
Sertanejo, que virou Sabadão e, mais adiante, Disco de Ouro.
Domingo Legal
Gugu ficou à frente do "Domingo Legal" por 16 anos
Imagem: Roberto Nemanis/SBT
Em 17 de janeiro de 1993, Gugu Liberato estreou seu programa de maior sucesso: Domingo Legal.
Sob o comando do apresentador durante 16 anos, a atração fez história
com quadros eternizados na TV, como Táxi do Gugu, Gugu na Minha Casa e
Banheira do Gugu, com famosos se digladiando em uma banheira à procura
de sabonetes.
O Domingo Legal acumulou vitórias contra o Domingão
do Faustão entre 1997 e 2002, e a guerra por audiência colocou os
apresentadores em clima de rivalidade (Gugu chegou a "nocautear" o
global em uma campanha do SBT). Em 2003, porém, eles se uniram de
maneira inédita na TV durante a campanha Junta Brasil, da Nestlé, em que
um conversava com o outro ao vivo.
No Domingo Legal, Gugu
conheceu o auge e o declínio. A Banheira precisou mudar de horário por
imposição do Ministério da Justiça. O ator Thiago Lacerda o processou
por ter leiloado uma suposta sunga usada por ele.
A pior mancha da
carreira de Gugu foi ao ar em 7 de setembro de 2003, quando dois
supostos criminosos da facção criminosa PCC deram uma entrevista ao
programa e ameaçaram de morte o então vice-prefeito de São Paulo, Hélio
Bicudo, e três apresentadores de programas policiais: José Luiz Datena
(Band), Marcelo Rezende (Rede TV!) e Oscar Roberto Godói (Record). Eles
ainda assumiram a tentativa de sequestro do padre Marcelo Rossi, um dos
melhores amigos de Gugu, ocorrido uma semana antes.
Pouco depois
de o programa ir ao ar, a própria facção desmentiu que os homens
fizessem parte do grupo. Gugu virou alvo de investigações e disse não
saber da farsa —segundo ele, teria confiado no relato do repórter Wagner
Maffezoli. A audiência do Domingo Legal perdeu fôlego, e o apresentador
decidiu, enfim, deixar o SBT após mais de três décadas ao lado de
Silvio Santos.
Gugu e Marlon, no "Power Couple Brasil"
Imagem: Reprodução/RecordContrato com a Record
Em
junho de 2009, Gugu trocou o SBT pela Record, em uma das negociações
mais caras da TV até então. O apresentador, recebendo R$ 3 milhões
mensais, passou a disputar audiência com o ex-patrão. A investida não
foi bem-sucedida e, após queda de audiência e troca de horário, Gugu
anunciou o fim de seu programa, em junho de 2013.
Pela primeira
vez em mais de 30 anos, decidiu ficar fora da televisão. Em 2014, o
apresentador tirou um ano sabático. Após ter rescindido seu contrato
milionário com a Record, Gugu retornou à emissora em 2015, mas como
sócio, dividindo os custos de produção e utilizando os estúdios de sua
empresa audiovisual, a GGP. O Programa Gugu, apresentado às
quartas-feiras, investiu em reportagens e tinha direção do departamento
de jornalismo da casa.
A atração, exibida ao vivo, ficou marcada
por entrevistas polêmicas, como a que ele fez com Suzane von Richthofen,
e a reportagem que mostrou a abertura do túmulo de Dercy Gonçalves.